Quem caminha pelas superquadras da Asa Sul ou da Asa Norte percebe a coerência urbanística que tornou Brasília patrimônio da humanidade. Blocos baixos, recuos generosos, comércio local integrado à vida residencial. O modelo funciona — até que a conta do aluguel chega.

O Plano Piloto concentra alguns dos metros quadrados mais caros do país. A combinação de escassez de terreno, restrições de altura e alta demanda por proximidade ao eixo governamental empurra preços para patamares inacessíveis a grande parte da população que trabalha na região central.

A lei do solo e seus efeitos

O Plano Diretor de Ordenamento Territorial do DF estabelece coeficientes de aproveitamento que limitam a densidade construtiva. Em áreas residenciais do Plano Piloto, a altura máxima permitida raramente ultrapassa seis pavimentos — e, em muitos casos, fica bem abaixo disso.

Urbanistas consultados pelo Plano Central divergem sobre a conveniência de flexibilizar essas regras. Para o professor emérito da UnB Marcos Aurélio (nome fictício para fins editoriais), "qualquer aumento de gabarito precisa vir acompanhado de infraestrutura — escolas, vagas de estacionamento, áreas de lazer". Já a arquiteta Helena Costa defende "experimentos pontuais em superquadras com baixa ocupação, desde que haja participação popular".

Moradores divididos

Em assembleias de condomínio e reuniões de administrações regionais, o tema gera debate acalorado. Moradores antigos temem a perda do caráter do bairro; famílias jovens reclamam da falta de opções. Comerciantes, por sua vez, defendem a revisão de normas que impedem a expansão de lojas em blocos residenciais.

A Superquadra 308 Sul virou caso de estudo após projeto de edifício residencial de oito andares ser aprovado em instância administrativa e contestado judicialmente. O processo segue em tramitação e serve de termômetro para futuras propostas semelhantes.

Alternativas em discussão

Entre as propostas em debate no governo do DF estão: incentivo à reforma de edifícios subutilizados, conversão parcial de unidades comerciais ociosas em habitação de interesse social e revisão do zoneamento em áreas de transição entre o Plano Piloto e as cidades-satélite.

Nenhuma dessas medidas resolve o problema sozinha. Mas o debate público — longe dos jargões técnicos e das decisões tomadas em gabinetes fechados — é o primeiro passo para uma cidade mais justa sem abrir mão de sua identidade.

O tema também chegou às audiências do Plano Distrital em maio, reunindo advogados, moradores e urbanistas de várias regiões administrativas. A expectativa é que um parecer técnico sobre densificação seletiva saia ainda em 2026 — resultado que o Plano Central acompanhará nas próximas edições com cobertura dedicada.

Enquanto isso, a rotina de quem mora ou trabalha no Plano Piloto segue marcada por filas de ônibus, vagas escassas e a sensação de que cada reforma urbanística demora uma geração para sair do papel.